Morte em Sapeaçu reacende debate sobre as espadas na Bahia
O episódio ocorreu em meio a um cenário de aumento das ocorrências envolvendo fogos de artifício durante os festejos juninos
Foto: Reprodução/ Tribuna da Bahia/ Divulgação A morte de um homem durante os festejos juninos em Sapeaçu, no Recôncavo Baiano, voltou a colocar em evidência uma discussão que há anos divide moradores, autoridades e praticantes: a permanência da guerra de espadas, tradição centenária da cultura popular baiana que, apesar de proibida pela Justiça, continua produzindo vítimas.
Na noite de terça-feira (23), Tarcísio Sodré Ramos do Nascimento, de 47 anos, morreu após ser atingido na cabeça por uma espada. O caso ocorreu no bairro Jaqueira. Segundo informações preliminares, o artefato teria explodido antes de atingir a vítima. Equipes do Departamento de Polícia Técnica (DPT) realizaram a perícia e a remoção do corpo.
O episódio ocorreu em meio a um cenário de aumento das ocorrências envolvendo fogos de artifício durante os festejos juninos. De acordo com dados divulgados pela Secretaria da Saúde do Estado da Bahia (Sesab), entre os dias 18 e 24 de junho deste ano, 72 pessoas deram entrada em unidades de saúde do estado vítimas de queimaduras relacionadas às comemorações de São João. Segundo o levantamento, 24 pacientes sofreram queimaduras provocadas por espadas, número superior ao registrado em qualquer outro tipo de ocorrência envolvendo fogos. Outros 17 casos foram causados por bombas, 13 por fogueiras, oito por traques, três por rojões e sete por outros artefatos.
Enquanto os hospitais registravam o atendimento às vítimas, as forças de segurança intensificavam as ações de fiscalização. Conforme informou a Polícia Militar, uma operação realizada em Santo Estêvão resultou na apreensão de 78 espadas e na condução de quatro pessoas à delegacia. O material foi localizado durante ações preventivas voltadas ao combate à fabricação, comercialização e utilização dos artefatos explosivos durante o período junino.
Os números ajudam a explicar por que a guerra de espadas permanece no centro das preocupações das autoridades. Embora seja defendida por praticantes como uma das mais tradicionais manifestações culturais do Recôncavo Baiano, a atividade é considerada ilegal desde decisões judiciais que culminaram no reconhecimento, pelo Supremo Tribunal Federal (STF), de que a fabricação, comercialização, o armazenamento, o transporte e a utilização das espadas se enquadram na legislação que regula explosivos.
A origem da manifestação remonta ao século XIX e está profundamente ligada à cultura popular do Recôncavo. Municípios como Cruz das Almas, Sapeaçu, Muritiba, Governador Mangabeira e Senhor do Bonfim transformaram as espadas em símbolo dos festejos juninos. Durante décadas, as chamadas guerras de espadas reuniram moradores e visitantes em disputas realizadas nas ruas, tornando-se uma das imagens mais conhecidas do São João baiano.
A tradição, entretanto, sempre caminhou lado a lado com o risco.
Segundo registros de órgãos de saúde, do Corpo de Bombeiros e das forças de segurança, queimaduras graves, mutilações, lesões oculares e traumas provocados por explosões fazem parte do histórico da prática. Em diversos episódios registrados ao longo dos anos, as vítimas sequer participavam das guerras e acabavam atingidas por artefatos que saíam da trajetória prevista ou explodiam antes do esperado.
O Ministério Público da Bahia (MP-BA), um dos principais defensores da proibição, sustenta que a fabricação artesanal das espadas aumenta significativamente os riscos. De acordo com o órgão, a ausência de controle técnico sobre a quantidade de pólvora utilizada e sobre os materiais empregados na produção potencializa a possibilidade de acidentes graves.
Foi justamente o acúmulo de ocorrências que levou a uma longa disputa judicial entre defensores da tradição e órgãos de fiscalização. Ao longo da última década, o MP-BA ingressou com diversas ações para impedir a realização das guerras de espadas e combater a fabricação clandestina dos artefatos.
O entendimento acabou consolidado pelo Supremo Tribunal Federal. Conforme decisões da Corte, normas municipais que buscavam reconhecer a guerra de espadas como patrimônio cultural não poderiam se sobrepor às regras de segurança previstas na legislação federal. Na prática, a fabricação, o armazenamento, a comercialização, o transporte e a utilização das espadas passaram a ser considerados atividades ilícitas.
Segundo o Ministério Público, a legislação prevê responsabilização criminal para os envolvidos na cadeia de produção e circulação dos artefatos. Dependendo das circunstâncias apuradas, as penas podem chegar a seis anos de prisão.
Apesar disso, a prática segue resistindo. Todos os anos, às vésperas do São João, as forças de segurança realizam operações para localizar fábricas clandestinas e apreender materiais explosivos. Em muitas cidades do Recôncavo, a produção continua ocorrendo de forma artesanal e clandestina, frequentemente em imóveis residenciais.
Neste ano, a Polícia Civil voltou a realizar a Operação Em Chamas, voltada à identificação de fabricantes, comerciantes e distribuidores dos artefatos. A iniciativa ocorre justamente diante da persistência da prática e do histórico de acidentes registrados durante os festejos juninos.
Segundo a corporação, as ações têm como objetivo reduzir o número de ocorrências e evitar novas vítimas. As apreensões realizadas nos últimos anos, porém, demonstram a dificuldade enfrentada pelo poder público para erradicar uma manifestação cultural profundamente enraizada em parte da população do interior baiano.
O debate também permanece longe de um consenso. Enquanto promotores de Justiça, policiais, bombeiros e profissionais de saúde defendem a manutenção da proibição com base nos riscos à vida e à integridade física das pessoas, grupos ligados aos espadeiros argumentam que a tradição poderia ser preservada por meio de regulamentação específica e da criação de espaços controlados para a prática.
Essa discussão ganhou força recentemente em municípios como Senhor do Bonfim, onde foram debatidas alternativas para a realização da atividade em ambientes delimitados e sob regras rígidas de segurança. Ainda assim, a proibição continua vigente e as autoridades mantêm o entendimento de que a circulação e a utilização das espadas representam risco à população.
Para o Ministério Público da Bahia, a preservação da vida deve prevalecer sobre qualquer manifestação cultural. Em campanhas educativas realizadas nos últimos anos, o órgão tem reforçado a mensagem de que "a vida vem antes da tradição" e alertado para as consequências da utilização dos artefatos explosivos.
A morte de Tarcísio Sodré volta agora a integrar a longa lista de acidentes relacionados às espadas na Bahia. Mais do que um episódio isolado, o caso expõe uma contradição que atravessa gerações: a tentativa de preservar uma tradição histórica dos festejos juninos diante de um histórico recorrente de feridos, mutilados e mortos.
Procurada pela reportagem, a Polícia Civil informou que a ocorrência foi registrada na Delegacia Territorial de Sapeaçu. "Guias para perícia e remoção foram expedidas. As circunstâncias da morte serão investigadas", diz em nota.


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