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Mata de São João,04/06/2026

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Mulheres relatam como o medo da violência sexual em Salvador alterou suas rotinas

Como a violência sexual altera rotinas, restringe movimentos, muda figurinos e exige das mulheres táticas para viver com algum grau de segurança da cidade

Fonte: Metro 1
Mulheres relatam como o medo da violência sexual em Salvador alterou suas rotinas Foto: Reprodução/Metro 1
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Os frequentes casos de estupro, violência sexual, perseguição e importunação, parte deles em ambientes públicos e cercados por câmeras de vigilância, deixa uma pergunta difícil de ignorar. Se é possível ser violentada em ambientes desse tipo, onde uma mulher está realmente segura em Salvador? 

A pergunta se reflete na rotina de dezenas de milhares de mulheres. Entre mais de dez entrevistadas pelo Jornal Metropole, nenhuma afirmou se sentir plenamente segura ao circular pela cidade. Em comum, elas relatam que evitam andar sozinhas à noite, mudam trajetos e compartilham a localização em tempo real com amigos e familiares.

Mais do que isso: escolhem roupas mais sóbrias antes de sair de casa ou simplesmente desistem de compromissos por medo da violência, um comportamento que não é exceção: segundo pesquisa recente do Datafolha, encomendada pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública, 41% das mulheres brasileiras já deixaram de sair à noite por puro medo.

Olhos de alerta

Por conta desse temor, estratégias para escapar da violência dirigida a elas acabaram incorporadas ao cotidiano de forma quase automática. Pequenas adaptações que, somadas, revelam uma realidade maior: para muitas mulheres, circular pela cidade exige planejamento, vigilância constante e uma série de cálculos que a maioria dos homens sequer precisa fazer antes de sair de casa.

O mais alarmante é que, apesar de todas essas táticas, nenhuma das mulheres ouvidas pela reportagem passa ilesa pela tensão diária. O medo não desaparece. Permanece como companhia silenciosa, alimentada pela sensação de que, a qualquer dia, ela pode virar a próxima vítima.

Fuga do inimigo

Estudante de Direito, Emily Estrela, de apenas 23 anos, conta que passou a redobrar os cuidados após ser alvo de perseguição. "Um homem começou a me mandar mensagens dizendo que me via passar todos os dias e ainda detalhou (como era) minha roupa. Aquilo me assustou muito, porque eu não sabia até que ponto ele estava me observando e qual era a sua intenção. A partir daí, deixei de fazer o caminho mais curto e passei a ir por outro mais distante", relata.

A pedagoga Emily Nery, 25 anos, descreve o estado permanente de vigilância que acompanha muitas mulheres. Ela evita usar roupas de academia durante o deslocamento sozinha, compartilha a localização quando utiliza transporte público e modifica a forma como anda pela cidade. "Eu prefiro passar pelo meio da rua a passar entre o espaço que tem a parede e o veículo. Porque eu já ouvi muitos casos de que homens ficam ali esperando para poder atacar", conta.

Para ela, a sensação é de alerta constante. "Eu não consigo descansar, ficar com a mente em paz quando eu estou sozinha caminhando em algum lugar. Principalmente à noite", afirma. A pedagoga relata ainda que sente alívio quando percebe que outra mulher está próxima. "É uma glória quando a gente enxerga uma mulher vindo na nossa direção", emenda

Formar ‘tribos’ femininas vira tática

A psicóloga Edvana Santana, 25 anos, afirma que a preocupação com a própria segurança influencia desde a escolha do transporte até os momentos de lazer. "Sempre deixo no mínimo uma pessoa a par de todo o meu passo a passo", diz. Ela conta que já deixou de frequentar lugares sozinha por medo da violência. "Muitas vezes as outras pessoas não querem fazer o mesmo que você, não querem ir no mesmo lugar, e a gente deixa de ter esses momentos de solitude somente por ser mulher", desabafa.

Segundo Edvana, grupos de amigas acabam criando redes informais de proteção para reduzir os riscos. "Se sair comigo para algum lugar, só vai voltar comigo", explica. Em festas e eventos, as mulheres costumam se revezar para que alguém permaneça mais atento ao ambiente. "Eu acho que é preciso uma aldeia para que a mulher se sinta segura ao sair", destaca.

Foto: Reprodução/Metro 1


Risco até no metrô e no banheiro

Os impactos também aparecem em situações simples do cotidiano. Meses atrás, a auxiliar de cartório Caroline Barbosa, de 33 anos, mudou o próprio percurso ao perceber que estava sendo seguida dentro do metrô. O destino precisou esperar. O instinto de autoproteção falou mais alto. "Eu tive que voltar para o lugar de partida, que nem era para onde eu ia, por causa dele", conta.

Desde então, cuidados que já faziam parte da rotina ganharam ainda mais força. Caroline diz ainda que evita banheiros em estações de metrô, procura sentar próxima ao motorista quando utiliza ônibus e escolhe determinados horários para se deslocar sozinha. "Eu prefiro segurar o xixi para fazer em um lugar mais seguro do que fazer em local público, porque a gente não tem segurança", afirma.

Temor materno

A violência ainda atravessa a maternidade. Também estudante de Direito, Daiane Antunes, 32 anos, mãe de uma menina de 7, afirma que, após se tornar mãe, passou a conviver com uma preocupação dupla: a própria segurança e a da filha. Hoje, uma parte das conversas dentro de casa gira em torno de orientações que considera necessárias para protegê-la. Não sair sozinha, não conversar com estranhos e procurar imediatamente um adulto de confiança caso alguém tente se aproximar são algumas das recomendações que repete com frequência.

Liberdade restrita

Para Ana Clara Auto, superintendente estadual de Prevenção e Enfrentamento à Violência contra a Mulher, o aumento dos casos de violência tem levado mulheres a restringirem cada vez mais sua circulação pela cidade. "A exaustão e o estresse que a gente vê em muitas mulheres são consequências também desse estado permanente de vigilância", explica.

O receio de não serem acolhidas quando denunciam, a sensação de impunidade e a culpa que ainda recai sobre as mulheres, diz Ana Clara, ajudam a explicar por que casos de assédio e importunação sexual seguem subnotificados.


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